CANNES, França. A confusão armada pela Grécia resultou no fracasso do encontro de cúpula do G-20, em Cannes, ontem. Numa semana absolutamente tumultuada, não houve espaço para acordo sobre um ponto considerado fundamental da busca de solução para a crise da Zona do Euro: a ajuda externa dos países emergentes. Agora, as esperanças ficam voltadas para uma nova reunião ministerial do grupo, que deve ocorrer em dezembro, possivelmente em Paris ou no México, próximo líder do G-20, conforme informou o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
As lideranças reunidas na França foram contaminadas pela tensão vinda de Atenas. Às vésperas da reunião que poderia ser decisiva para conter a turbulência, o primeiro-ministro grego, George Papandreou, anunciou a intenção de realizar um referendo popular sobre o pacote de ajuda recebido da União Europeia, que culminaria em mais impostos e cortes de gastos no país. Foi um golpe fatal sobre o G-20.
O mundo político entrou em ebulição. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, nem tentaram disfarçar a irritação em Cannes. Pela primeira vez, falaram em público sobre a possibilidade de a Grécia deixar a Zona do Euro, um verdadeiro tabu no continente. Prova de que a situação é grave e traz o risco de volta da recessão foi a inesperada decisão do Banco Central Europeu (BCE) de cortar os juros na quinta-feira, já na primeira reunião do novo presidente, Mario Draghi.
O tema da Grécia dominou não apenas os europeus, mas todos os países presentes ao encontro. A presidente do Brasil Dilma Rousseff deixou claro que a Grécia era a grande preocupação nas conversas que teve com diversos líderes, em reuniões bilaterais. Papandreou acabou fuzilado dentro do seu próprio partido, desistiu da ideia do referendo e passou a lutar por sua sobrevivência política - acabou como a "persona non grata" de Cannes.
Mesmo assim, não foi possível salvar o acordo no G-20. Afinal, não há como montar um esquema de ajuda externa se a própria Europa ainda tem uma série de indefinições a resolver. Como disse Dilma, "os europeus precisavam de mais tempo para concretizar suas próprias medidas". Nesse cenário, países como o Brasil e a China não quiseram se comprometer com uma ajuda direta à Europa. A presidente brasileira foi bastante clara ao descartar essa possibilidade. "Não tenho a menor intenção de fazer uma contribuição direta para a EFSF (o fundo europeu", disse, referindo-se à linha de resgate europeia para os países em dificuldades. "Se nem eles têm, porque eu teria?" Os emergentes querem que o suporte para a Zona do Euro seja feito por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI), que não só dá garantias para os recursos como permite maior participação na governança global.
Os membros do G-20 voltaram a afirmar seu compromisso de fortalecer os recursos do fundo, que conta hoje com US$ 400 bilhões. Entretanto, o formato e os valores ficaram em aberto, já que diversas possibilidades estão sobre a mesa, como os créditos bilaterais, nova alocação dos direitos especiais de saque (SDRs, na sigla em inglês) e contribuições voluntárias por meio de uma estrutura especial, como uma conta administrada. Portanto, os europeus terminam a cúpula do G-20 sem saber o essencial: de onde virão os recursos para salvar os países em dificuldades e como ampliar o EFSF para o pretendido 1 trilhão. Para Karen Ward, economista global do banco HSBC, prevalece a dúvida deixada na semana passada: há dinheiro suficiente?
Itália pede ajuda ao FMI
Cannes, frança. O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, confirmou ontem, durante o G-20, ter pedido que o Fundo Monetário Internacional (FMI) monitore os planos de reformas nas contas públicas do governo italiano. Berlusconi afirmou, porém, que Roma rejeitou uma oferta de fundos do FMI.
Berlusconi afirmou que pediu que o FMI tenha um papel de "certificar" as contas da Itália. Em relação à oferta de fundos, Berlusconi disse: "Eu não acredito que a Itália precise disso", disse.
O primeiro-ministro italiano afirmou ainda que os yields (prêmios) sobre os bônus do governo italiano foram puxados para cima graças a um "ataque" contra o euro e os bônus italianos cometido pela "finança internacional". Durante a cúpula, as preocupações com a saúde financeira da Itália aumentaram entre os participantes.